Allan Kardec foi o
codificador da Doutrina dos Espíritos, sintetizador do destino das necessidades espirituais de uma era, imersa no
negativismo e descrença; o século XIX se configurava numa espécie de "fim
dos trilhos" dos últimos resquícios da era (e da fé) medieval crista.
Em seu trabalho,
juntou as mensagens e inspirações recebidas pelos médiuns espirituais e, como
outros movimentos fora do seio da madre igreja, deu nova interpretação e fôlego
surpreendentes aos escritos cristãos, abrindo as portas para o que se
consolidaria pela Doutrina Espírita da qual o Brasil é,
inquestionavelmente, a locomotiva.
Como toda doutrina, a
DE estabeleceu seus postulados mas em sues longos 150 anos, inevitavelmente, deu margem aos seus "dogmas", se entendermos por "dogmas" a acepção de "qualquer
discurso ou ideologia de teor inquestionável", e tão somente isto. Sabemos do
incômodo da palavra nos meios espíritas, por lembrar a liturgia católica... No entanto, avaliamos ser prejudicial repetir-se indefinidamente que
não existem no contexto da DE, pois apenas adiaremos o enfrentamento que devemos ter com nossas próprias verdades, neste caso, coletivas.
Mas, era para
ser assim? De forma alguma. Kardec insistiu e se prontificou a impedir o
recrudescimento de verdades inquestionáveis na Doutrina quando colocou a
possibilidade de seu desenvolvimento aos predecessores e o famoso "controle universal dos espíritos". Mas não estranhamos... Assim como Jesus anunciou
o Consolador como esclarecedor de suas palavras e tão logo subiu aos céus os
homens trataram de burocratizar e petrificar o cristianismo, o mesmo aconteceu
e acontece nos degraus infindáveis da DE; neste momento nos referimos ao
conceito/dogma da obsessão.
Embora a obsessão por
espíritos seja postulado antigo, encontrado na origem dos povos e nos
arquétipos humanos, vale notar sua atualidade no seio da sociedade
contemporânea; tampouco é privilégio dos assuntos espíritas, coexistindo em manejo
nas igrejas pentecostais e neo-pentecostais. Chamados de encostos, diabos,
irmãos inferiores... são, em um corte transversal, ideologicamente do
mesmo tecido: perturbadores da paz dos homens e razão de seus males, muitas
vezes, de suas maldades.
Todavia, aqui entramos no
campo delicado.
Como espírita e médium,
nunca poderia questionar a realidade do mundo espiritual, que já presenciei de
várias formas, em vários graus de intensidade, nos seus cumes de luz e nos
lodaçais sombrios... Aprendi que tanto o bem quanto o mal vão além da ideia
que fazemos deles e existem no mundo e nos seres, aqui e no plano maior.
Todavia, trago aqui a
questão incômoda: será que a maioria das vezes o suposto obsessor não é uma
parte de nós mesmos, a agir autonomamente? Em nossas palestras e conversas
com confrades espíritas, observamos a dificuldade em avaliar a questão se, no
caso, o que chama-se obsessão, nos quadros mais leves, não se trata de
neuroses. Cabe aqui então entender o que é uma neurose e também verificar se pode-se tomar uma por outra. Vamos
encarar esta?
No sentido clássico,
standard, de uma forma bem resumida, a neurose pode ser entendida como um
estado de desequilíbrio condicionado por um aglomerados de energias psíquicas
que, não tendo sido devidamente digeridas pela consciência, ganharam autonomia
inconsciente, quase como um "outro ego", nas palavras de Jung.
Para aqueles que não acreditam no inconsciente, não há como negá-lo mais...
Basta refletir nas situações em que iríamos dizer uma palavra e dizemos uma
outra, o chamado "lapsus linguae". Questões: Como meu aparelho
fonador pôde ser acionado e regido com tamanha precisão, organizando uma
palavra/frase totalmente inteligível, quando eu iria dizer outra coisa? Como
explicar que existiu um momento em que eu era um espectador e tive de me
corrigir no que acabei de dizer, como se eu fosse um outro? Ou será que
realmente me corrigi, ou corrigi a um outro?
O ato falho é apenas um dos
indícios da atividade inconsciente, dentre outros. Freud teve o grande mérito
de trazer à consciência da humanidade a existência deste outro, inconsciente (o
próprio inconsciente inconsciente, com perdão ao jogo de conceitos). Deste inconsciente, a psicanálise
trouxe a lume as causas da maioria dos sofrimentos psíquicos: as lembranças
reprimidas e parasitas dos estados lúcidos. Todavia para Freud e seus seguidores puros, as
lembranças começavam na vida corpórea, única concebível, mas para as escolas
posteriores e mais abertas aos fatores espirituais, estas lembranças podem e são por vezes heranças trazidas pelo Espírito.
Contudo, fugindo do caráter
extenso destes assuntos, nos aferramos à seguinte questão aqui: Podemos ter
tratado as neuroses por obsessões? Cremos que sim. E isto para prejuízo de
todos... Explicamos.
Se por acaso um núcleo
coeso perturbador vaga por nosso inconsciente, do tipo: meu pai me repreendia e
corrigia sistematicamente e, embora eu conscientemente nunca me dou conta disto
às claras, toda vez que alguém tenta me corrigir eu sofro, enfrento,
tento fazer prevalecer minha opinião, fico com rancor da pessoa, etc... Assim,
toda vez que esta situação se apresentar, se a tratarmos como obsessão (não que
não exista destas), como perturbação dos irmãos inferiores, estaremos errando
em: 1) Tirar a responsabilidade dos reais atuantes para estes estados,
delegando a causa a um agente externo, que pode não existir no momento;
2) Empurrar a neurose poço abaixo, esmagando-a no inconsciente, de onde
ela um dia certamente voltará; 3) Criar a mentalidade de que o homem é mais
responsável pelos seus estados de bondade do que pelos de desarmonia.
Assim, observamos que
tal procedimento, tão comuns na atividades espiritualista, pode derrocar em
fracasso e prejuízo do crescimento pessoal. O mesmo fracasso não parece, a
nosso ver, quando tomarmos uma obsessão leve por uma neurose, mesmo que não o
seja. Neste caso, supondo-se uma pessoa estar ou acreditar estar sob influência
de um mal espírito, que lhe inflige maus pensamentos, a consideração desta por
aquela pode redundar em resultados positivos, à revelia do "erro",
isto porque a neurose pode ser encarada como um ser autônomo, que exige
compreender-se e integrar-se.
A escola psicanalítica
junguiana, embora denomine-se psicologia analítica, viu estes "entes"
como outros egos, o que dava margem a tratá-los como autônomos. Visto desta
forma, o fato de ser um espírito o perturbador ou um núcleo denso de
sentimentos coesos e contíguos não influi no procedimento, pois o foco do processo
de acesso sempre estará à caça deste intro-extra-ente, sendo posteriormente
irrelevante se tratou-se de um outro-ego interno ou externo.
Muitas decorrências se dão a
partir destas colocações, que sabemos serem para um trabalho mais próprio, que
aqui não cabe, mas daremos cabo ainda às estradas abertas aqui.
É um ponto vista numa
constelação de propostas e saberes que, como todos eles, será julgado pelo
tempo, e pelo espaço...Claro!
Saudações
Rogério Temporim