Por Rogério Temporim
Não nego a alcova
espírita na qual durmo todas as noites do meu labor mental, embora seja
tenro psicanalista e isto pareceria me agredir... Também não posso
negar que tinha por certo que a porta de entrada de Freud era a de
saída da minha profissão de fé espírita, por isso emperrei várias vezes
no portal (de jacarandá, que dava numa sala, pé direito
fantasmagórico, estantes escuras e abarrotadas de livros, também
escuros e de capa dura; um divã de veludo na diagonal...)... Contudo,
imagens à parte, nosso julgamento é pessoal, não resolve o mundo de
possibilidades já dadas e ainda não constatadas pessoalmente. Ademais, o
julgamento também tem seus motivos inconscientes... Nisso sempre penso
lembrando: que maravilha é a técnica de Sigmund Freud!
Foi então, cavando
muito nos terrenos pedregosos da psicanálise, removendo os escombros de
minha resistência, que encontrei algumas luzes a guiar meu “espírito” e
destas luzes, não posso negar ser a mais robusta e multicor a de
Norberto Keppe.
Sua proposta
pareceu-me despretensiosa e na primeira vez, li algumas páginas e
descansei o livro... Voltei para Melanie Klein, ou ao que diziam dela[1]...
Mas é mesmo a velha
resistência, e não podia persistir no mesmo erro de novo, de novo, de
novo. (Des)voltei, continuei a ler e fui tragado para um outro chão,
muito mais sólido e condizente com minha natureza e, creio, a de todo
ser humano em legitimidade.
Norberto Keppe é um
psicanalista que, após a formação clássica em Viena, não se conformou
com o anti-humanismo da escola de Freud e procurou conceituar, para
atrás da técnica (indiscutivelmente eficaz), um fundo mais legítimo com
o fator inegável da história das civilizações: a transcendentalidade.
De posse do dado sabido que não houve nenhum povo legitimamente ateu na
humanidade[2],
considerando a força dos conceitos das contribuições de Jung, Keppe
desenvolveu um pano de fundo consistente e, intuitivamente, mais
coerente com a aspiração espiritual humana.
Aqui, faz-se necessário um conhecimento de alguns conceitos da psicanálise, facilmente encontrados[3].
A consciência é o contato com o exterior e há o inconsciente[4] pessoal[5]. Até aqui vai Freud. A partir de Jung, o inconsciente coletivo[6] é conceituado, este formado pelos arquétipos (ideias eternas, presentes em todos os povos).
Dos arquétipos Junguianos, Keppe separa as instâncias de moralidade para o que chama de transtipos,
que são aspirações sublimes, como a da existência de um Criador, da
imortalidade do espírito, etc. Ao lado dos Inconscientes Pessoais e
Coletivos, conceitua o Transconsciente, também um
pessoal e outro coletivo. Assim, a predisposição inata do homem à
transcendência, manifesta nas mais variadas formas de religiosidade,
ganha o lugar especial no aparelho psíquico Keppiano. Aqui, ilustramos
com imagem e palavras do próprio senhor Keppe:
Não temos aqui
intenção outra senão pinçar esta outra estrada teórico-prática no
complexo viário da psicanálise, bem como para divulgá-la entre leigos e
psicanalistas; o leitor interessado poderá se aprofundar nos textos do
próprio senhor Norberto[8].
Sua atividade clínica, nas décadas, comprovou a concomitância entre
neurose e crise existencial/religiosa, mostrando também como os
psicanalisados na clínica clássica tiveram de, necessariamente, abafar
sua transcendentalidade e instituir um viver robótico e, por vezes,
amargo.
É sabido das aspirações místicas do próprio Freud[9] e do caminho que seus escritos tomaram em seus últimos trabalhos[10],
como se mostrasse o próprio caminho do indivíduo humano que, perdido
entre as racionalizações de uma vida pós-moderna, terá de confrontar-se
com a carência transcendental e as decorrentes questões profundas da
existência humana. Keppe vai além, diz que este caminho biográfico dao
mestre “mostra-nos também como deveria ser realizado o processo
de psicanálise, isto é, a profunda necessidade de se explorar
juntamente com o inconsciente, ou após este trabalho, o lado espiritual
do neurótico, caso se deseje que sua recuperação seja completa.”
Quanto ao
eco destas teorias dentro das linhas ortodoxas, não me atreverei
adentrar, pois acredito que a coerência dos pensamentos, estes enquanto
sistemas para dentro de si mesmos, é justamente o que garante a
pertinência das correntes antagônicas e o combustível do discurso
refratário... Peço, assim, licença à ortodoxia para incluir aqui também
o meu.
