terça-feira, 29 de outubro de 2013

Keppe: O Fator Transcendente E Suas Repercussões No Aparelho Freudiano

Keppe: O Fator Transcendente E Suas Repercussões No Aparelho Freudiano
Por Rogério Temporim

Não nego a alcova espírita na qual durmo todas as noites do meu labor mental, embora seja tenro psicanalista e isto pareceria me agredir... Também não posso negar que tinha por certo que a porta de entrada de Freud era a de saída da minha profissão de fé espírita, por isso emperrei várias vezes no portal (de jacarandá, que dava numa sala, pé direito fantasmagórico, estantes escuras e abarrotadas de livros, também escuros e de capa dura; um divã de veludo na diagonal...)... Contudo, imagens à parte, nosso julgamento é pessoal, não resolve o mundo de possibilidades já dadas e ainda não constatadas pessoalmente. Ademais, o julgamento também tem seus motivos inconscientes... Nisso sempre penso lembrando: que maravilha é a técnica de Sigmund Freud!
Foi então, cavando muito nos terrenos pedregosos da psicanálise, removendo os escombros de minha resistência, que encontrei algumas luzes a guiar meu “espírito” e destas luzes, não posso negar ser a mais robusta e multicor a de Norberto Keppe.
Sua proposta pareceu-me despretensiosa e na primeira vez, li algumas páginas e descansei o livro... Voltei para Melanie Klein, ou ao que diziam dela[1]...
Mas é mesmo a velha resistência, e não podia persistir no mesmo erro de novo, de novo, de novo. (Des)voltei, continuei a ler e fui tragado para um outro chão, muito mais sólido e condizente com minha natureza e, creio, a de todo ser humano em legitimidade.
Norberto Keppe é um psicanalista que, após a formação clássica em Viena, não se conformou com o anti-humanismo da escola de Freud e procurou conceituar, para atrás da técnica (indiscutivelmente eficaz), um fundo mais legítimo com o fator inegável da história das civilizações: a transcendentalidade. De posse do dado sabido que não houve nenhum povo legitimamente ateu na humanidade[2], considerando a força dos conceitos das contribuições de Jung, Keppe desenvolveu um pano de fundo consistente e, intuitivamente, mais coerente com a aspiração espiritual humana.
Aqui, faz-se necessário um conhecimento de alguns conceitos da psicanálise, facilmente encontrados[3].
A consciência é o contato com o exterior e há o inconsciente[4] pessoal[5]. Até aqui vai Freud. A partir de Jung, o inconsciente coletivo[6] é conceituado, este formado pelos arquétipos (ideias eternas, presentes em todos os povos).
Dos arquétipos Junguianos, Keppe separa as instâncias de moralidade para o que chama de transtipos, que são aspirações sublimes, como a da existência de um Criador, da imortalidade do espírito, etc. Ao lado dos Inconscientes Pessoais e Coletivos, conceitua o Transconsciente,  também um pessoal e outro coletivo. Assim, a predisposição inata do homem à transcendência, manifesta nas mais variadas formas de religiosidade, ganha o lugar especial no aparelho psíquico Keppiano. Aqui, ilustramos com imagem e palavras do próprio senhor Keppe:

 
 

Não temos aqui intenção outra senão pinçar esta outra estrada teórico-prática no complexo viário da psicanálise, bem como para divulgá-la entre leigos e psicanalistas; o leitor interessado poderá se aprofundar nos textos do próprio senhor Norberto[8]. Sua atividade clínica, nas décadas, comprovou a concomitância entre neurose e crise existencial/religiosa, mostrando também como os psicanalisados na clínica clássica tiveram de, necessariamente, abafar sua transcendentalidade e instituir um viver robótico e, por vezes, amargo.
 É sabido das aspirações místicas do próprio Freud[9] e do caminho que seus escritos tomaram em seus últimos trabalhos[10], como se mostrasse o próprio caminho do indivíduo humano que, perdido entre as racionalizações de uma vida pós-moderna, terá de confrontar-se com a carência transcendental e as decorrentes questões profundas da existência humana.  Keppe vai além, diz que este caminho biográfico dao mestre “mostra-nos também como deveria ser realizado o processo  de psicanálise, isto é, a profunda necessidade de se explorar juntamente com o inconsciente, ou após este trabalho, o lado espiritual do neurótico, caso se deseje que sua recuperação seja completa.”
            Quanto ao eco destas teorias dentro das linhas ortodoxas, não me atreverei adentrar, pois acredito que a coerência dos pensamentos, estes enquanto sistemas para dentro de si mesmos, é justamente o que garante a pertinência das correntes antagônicas e o combustível do discurso refratário... Peço, assim, licença à ortodoxia para incluir aqui também o meu.