Na semana pregressa estive trabalhando com uma atriz numa tarefa muito prazeroza: a contaçãod e histórias.
Como corriqueiramente, a arte da contação de histórias terá sua performance para um público predominantemente infantil, que inclue em geral também os pais e familiares das crianças.
Foram algumas sessões (mais de dez...), em vários lugares e algumas delas deixaram lembranças marcantes; aqui, trarei ao lume as reflexões que me propuseram um desses encontros artistas-público.
Após todas estas contações de histórias, eram oferecidos lapis e papel às crianças para que, através de desenhos, recontassem a história em quadros, atividade que logo despertava grande alvoroço e agitação entre crianças e pais. Contudo, ao "inspecionar" por entre as famílias que desenhavam e pintavam, deparei-me com um núcleo singular: a criança olhava para uma folha em branco, enquanto mãe e avó (deduzi serem estas), meio desconcertadas, olhavam-se e aguardavam a minha passagem. Ao que cheguei e perguntei (à criança):
- MInha querida, não vai pintar nada? O que você sabe desenhar?
Prontamente, a mão protecionou: - Não, ela não consegue desenhar nada não!
Num repente inevitável, disse como que fora de mim: - Claro que ela desenha! Quer ver: desenha então a nuvenzinha para o tio!
Era tarde demais... Havia tocado, de modo pouco educado, naquela chaga familiar... Mãe e avós se olharam e ficaram como que em uma expectativa indefinida... e pavorosa: a menina, encorajada pela intrépida intervenção (a qual fiz sem mesmo pensar em fazer), começou a rabiscar algo. Enquanto isso,eu percebia que ali naquela célula estava um quadro de maior complexidade e antes que a mãe viesse a me interpelar sobre estar "pressionando" a filha e tal (o que seria natural), me afastei...
Idas e vindas pela sala (em que eu tinha apenas a mesa da menina às vistas), retorno à mesa e vejo o que parecia a "nuvenzinha" pedida por mim e uma árvore desenhada, aliás bem desenhada! Percebi na hora que não devia ter sido a menina, que contaria com uns 2 ou 2,5 anos de idade. Mas, mesmo para animá-la, naqueles processos necessários para a idade, disse aos olhos de todos: - que desenho bonito você fez com sua mamãe! Que árvore bonita!
Cabe ao leitor saber de prévio que, naquele momento, minha atividade psicanalítica não estava em foco, assim, minhas intervenções não tiveram a intenção de salientar qualquer jogo de relações naquela família... Todavia, a saliência não se resguardou de verificação. A mãe não se conformou:
- Não! Não foi ela quem desenhou, fui eu! Eu fiz a árvore sozinha!
Por pouco não vi ali uma sala, uma poltrona, um paciente, o setting montado: olhei automaticamente para a avó, que (como pré-vira) fazia um gesto de desdém com a cabeça.
Claro estava o triste quadro em que aquela menininha agora perpetuava uma das posições. Avó sempre subestimando sua filha, desde pequena, ação que esta repetia agora com a pequena menininha, já que só a incapacidade da próxima podia alimentar o narcisismo (insegurança) da anterior. Círculos de punição e vingança que dificilmente podemos detectar sozinhos, quaisquer um de nós. Não às culpo inteiramente deste nefasto circuito.
Imediatamente (e agora consciente do que acontecia), disse para a menininha: - Ah! Mas agora ela vai completar o desenho, coloca uma chuvinha pro tio!
Ela começou a fazer riscos, representando a chuva, e a mãe, num misto de alegria e tristeza, deixou cair a bolsa no chão, pois havia uma intrusão desconcertante à sabotagem, uma posição desconfortável entre eles, inexistente antes, que poderá ser ocupada e, se o for, desvirtuará o ciclo doentil para a (inconveniente) liberdade.
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Rogério Temporim
