quarta-feira, 31 de julho de 2013

O caso de uma criança sabotada


 Na semana pregressa estive trabalhando com uma atriz numa tarefa muito prazeroza: a contaçãod e histórias.

 Como corriqueiramente, a arte da contação de histórias terá sua performance para um público predominantemente infantil, que inclue em geral também os pais e familiares das crianças.

 Foram algumas sessões (mais de dez...), em vários lugares e algumas delas deixaram lembranças marcantes; aqui, trarei ao lume as reflexões que me propuseram um desses encontros artistas-público.

 Após todas estas contações de histórias, eram oferecidos lapis e papel às crianças para que, através de desenhos, recontassem a história em quadros, atividade que logo despertava grande alvoroço e agitação entre crianças e pais. Contudo, ao "inspecionar" por entre as famílias que desenhavam e  pintavam, deparei-me com um núcleo singular: a criança olhava para uma folha em branco, enquanto mãe e avó (deduzi serem estas), meio desconcertadas, olhavam-se e aguardavam a minha passagem. Ao que cheguei e perguntei (à criança):

  - MInha querida, não vai pintar nada? O que você sabe desenhar?

Prontamente, a mão protecionou: - Não, ela não consegue desenhar nada não!

  Num repente inevitável, disse como que fora de mim: - Claro que ela desenha! Quer ver: desenha então a nuvenzinha para o tio!

  Era tarde demais... Havia tocado, de modo pouco educado, naquela chaga familiar... Mãe e avós se olharam e ficaram como que em uma expectativa indefinida... e pavorosa: a menina,  encorajada pela intrépida intervenção (a qual fiz sem mesmo pensar em fazer), começou a  rabiscar algo. Enquanto isso,eu percebia que ali naquela célula estava um quadro de maior complexidade e antes que a mãe viesse a me interpelar sobre estar "pressionando" a filha e tal (o que seria natural), me afastei...

  Idas e vindas pela sala (em que eu tinha apenas a mesa da menina às vistas), retorno à mesa e vejo o que parecia a "nuvenzinha" pedida por mim e uma árvore desenhada, aliás bem desenhada! Percebi na hora que não devia ter sido a menina, que contaria com uns 2 ou 2,5 anos de idade. Mas, mesmo para animá-la, naqueles processos necessários para a idade, disse aos olhos de todos: - que desenho bonito você fez com sua mamãe! Que árvore bonita!

  Cabe ao leitor saber de prévio que, naquele momento, minha atividade psicanalítica não estava em foco, assim,  minhas intervenções não tiveram a intenção de salientar qualquer jogo de relações naquela família... Todavia, a saliência não se resguardou de verificação. A mãe não se conformou: 

- Não! Não foi ela quem desenhou, fui eu! Eu fiz a árvore sozinha!

  Por pouco não vi ali uma sala, uma poltrona, um paciente, o setting montado: olhei automaticamente para a avó, que (como pré-vira) fazia um gesto de desdém com a cabeça. 

  Claro estava o triste quadro em que aquela menininha agora perpetuava uma das posições. Avó sempre subestimando sua filha, desde pequena, ação que esta repetia agora com a pequena menininha, já que só a incapacidade da próxima podia alimentar o narcisismo (insegurança) da anterior. Círculos de punição e vingança que dificilmente podemos detectar sozinhos, quaisquer um de nós. Não às culpo inteiramente deste nefasto circuito.

  Imediatamente (e agora consciente do que acontecia), disse para a menininha: - Ah! Mas agora ela vai completar o desenho, coloca uma chuvinha pro tio!

  Ela começou a fazer riscos, representando a chuva, e a mãe, num misto de alegria e tristeza, deixou cair a bolsa no chão, pois havia uma intrusão desconcertante à sabotagem, uma posição desconfortável entre eles, inexistente antes, que poderá ser ocupada e, se o for, desvirtuará o ciclo doentil para a (inconveniente) liberdade.


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 Rogério Temporim


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Keppe: O Fator Transcendente E Suas Repercussões No Aparelho Freudiano

Por Rogério Temporim

Não nego a alcova espírita na qual durmo todas as noites do meu labor mental, embora seja tenro psicanalista e isto pareceria me agredir... Também não posso negar que tinha por certo que a porta de entrada de Freud era a de saída da minha profissão de fé espírita, por isso emperrei várias vezes no portal (de jacarandá, que dava numa sala, pé direito  altíssimo, estantes escuras e abarrotadas de livros, também escuros e de capa dura;  um divã de veludo na diagonal...)... Contudo, imagens à parte, nosso julgamento é pessoal, não resolve o mundo de possibilidades já dadas e ainda não constatadas pessoalmente. Ademais, o julgamento também tem seus motivos inconscientes... Nisso sempre penso lembrando: que maravilha é a técnica de Sigmund Freud!
Foi então, cavando muito nos terrenos pedregosos da psicanálise, removendo os escombros de minha resistência, que encontrei algumas luzes a guiar meu “espírito” e destas luzes, não posso negar ser a mais robusta e multicor a de Norberto Keppe.
Sua proposta pareceu-me despretensiosa e na primeira vez, li algumas páginas e descansei o livro... Voltei para Melanie Klein, ou ao que diziam dela[1]...
Mas é mesmo a velha resistência, e não podia persistir no mesmo erro de novo, de novo, de novo. (Des)voltei, continuei a ler e fui tragado para um outro chão, muito mais sólido e condizente com minha natureza e, creio, a de todo ser humano em legitimidade.
Norberto Keppe é um psicanalista que, após a formação clássica em Viena, não se conformou com o anti-humanismo da escola de Freud e procurou conceituar, para atrás da técnica (indiscutivelmente eficaz), um fundo mais legítimo com o fator inegável da história das civilizações: a transcendentalidade. De posse do dado sabido que não houve nenhum povo legitimamente ateu na humanidade[2], considerando a força dos conceitos das contribuições de Jung, Keppe desenvolveu um pano de fundo consistente e, intuitivamente, mais coerente com a aspiração espiritual humana.
Aqui, faz-se necessário um conhecimento de alguns conceitos da psicanálise, facilmente encontrados[3].
A consciência é o contato com o exterior e há o inconsciente[4] pessoal[5]. Até aqui vai Freud. A partir de Jung, o inconsciente coletivo[6] é conceituado, este formado pelos arquétipos (ideias eternas, presentes em todos os povos).
Dos arquétipos Junguianos, Keppe separa as instâncias de moralidade para o que chama de transtipos, que são aspirações sublimes, como a da existência de um Criador, da imortalidade do espírito, etc. Ao lado dos Inconscientes Pessoais e Coletivos, conceitua o Transconciente,  também um pessoal e outro coletivo. Assim, a predisposição inata do homem à transcendência, manifesta nas mais variadas formas de religiosidade, ganha o lugar especial no aparelho psíquico Keppiano. Aqui, ilustramos com imagem e palavras do próprio senhor Keppe:

Não temos aqui intenção outra senão pinçar esta outra estrada teórico-prática no complexo viário da psicanálise, bem como para divulgá-la entre leigos e psicanalistas; o leitor interessado poderá se aprofundar nos textos do próprio senhor Norberto[8]. Sua atividade clínica, nas décadas, comprovou a concomitância entre neurose e crise existencial/religiosa, mostrando também como os psicanalisados na clínica clássica tiveram de, necessariamente, abafar sua transcendentalidade e instituir um viver robótico e, por vezes, amargo.
 É sabido das aspirações místicas do próprio Freud[9] e do caminho que seus escritos tomaram em seus últimos trabalhos[10], como se mostrasse o próprio caminho do indivíduo humano que, perdido entre as racionalizações de uma vida pós-moderna, terá de confrontar-se com a carência transcendental e as decorrentes questões profundas da existência humana.  Keppe vai além, diz que este caminho biográfico dao mestre “mostra-nos também como deveria ser realizado o processo  de psicanálise, isto é, a profunda necessidade de se explorar juntamente com o inconsciente, ou após este trabalho, o lado espiritual do neurótico, caso se deseje que sua recuperação seja completa.”
                Quanto ao eco destas teorias dentro das linhas ortodoxas, não me atreverei adentrar, pois acredito que a coerência dos pensamentos, estes enquanto sistemas para dentro de si mesmos, é justamente o que garante a pertinência das correntes antagônicas e o combustível do discurso refratário... Peço, assim, licença à ortodoxia para incluir aqui também o meu.
São Paulo, 07 de Julho de 2013
Rogério Temporim


[1] SIMON, Riad – Introdução à Psicanálise: Melanie Klein
[2] Max Beer – História do Socialismo e das Lutas sociais.
[3] Digitar cada termo em negrito na internet ou consultar a vasta bibliografia de psicanálise e psicologia.
[4] Por apenas inconsciente estaremos dentro dos postulados freudianos, haja que para ele só há um inconsciente, o pessoal.
[5] Quando é agregado o termo pessoal ao inconsciente, esta composição faz oposição ao inconsciente coletivo e o terreno já é junguiano.
[6] Aqui, Keppe considera uma teoria exclusiva  de Carl Jung
[7] Extraído do livro em referência na nota 8 (pg 15)
[8] KEPPE, Norberto. Psicanálise Integral. São Paulo. Ed Proton. 2004 (Seg Ed)
[9] JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud
[10] Das últimas obras de Freud: Uma Neurose Demoníaca[..], O Futuro de Uma Ilusão, Uma Experiência Religiosa.