Quando vimos este livro, apresentou-se, ao menos na capa, como uma porta para o consultório de atendimento de Freud, era só abrir e deitar no divã... Devo confessar que não fomos decepcionados, pois o livro realmente coloca o leitor em posição privilegiada nas cenas em que veria-se o mestre em ação!
Todavia, vale ressaltar que o livro é uma obra organizada post mortem, não tendo sido publicado nem finalizado pelo autor; são anotações das sessões organizadas e publicadas por sua esposa, Margaret Blanton, que pelas notas e comentários mostra grande competência intelectual, o que é asseverado mesmo por Freud, em uma das sessões de Smiley Blanton.
Diários de analisandos de Freud existem em número considerável. No presente, cremos que os pontos por nós acentuados são de uma importância bivalente. Assim o são porque sempre ocorrem em duas facetas inusitadamente concomitantes: Freud (em dado(s) momento(s)) quebra protocolos da dita "neutralidade" de analista e, nestas brechas, diz coisas interessantes, por que não espantosas, para a imagem default do mestre.
Sobre a educação com amor
Na sessão do dia 23 de Janeiro de 1930, o senhor Smiley faz um comentário sobre não concordar com a teoria da inferioridade de Adler. Nisto, Freud lhe diz: "... A criança que é realmente amada não se sente inferior... O desejo que a criança tem de atenção e apenas um desejo diminuído de amor...". Por fim, após um comentário do paciente diz: "É verdade, uma educação de ódio deve ser substituída por uma educação de amor!"
Sobre a religiosidade em Freud
Em 6 de Agosto de 1935, o senhor Smiley demonstra na sessão seu sofrimento em relação À cura de seus pacientes. Freud então quebra a neutralidade e diz: "Não se perturbe muito... o senhor me dá a impressão de um excessivo esforço... Faça um trabalho tão completo quanto possível...". Então, em atitude impensada para muitos leitores de psicanálise (incluindo eu), ele cita uma expressão que está no túmulo de Paré, sugerindo que é assim que deveriam trabalhar: "Tratei os meus pacientes - Deus os curou". Parece que o espanto também foi ao senhor Smiley, que alega não ter entendido, no que Freud repete a frase sui generis.
Ainda em1935, à insistência de Blanton sobre como tratar melhor seus pacientes, Freud insisti: "Talvez o senhor fique muito angustiado com seus pacientes. O senhor precisa deixar que fiquem mais livres...". E como que reivindicando da mesma liberdade , lhe diz: "Deixe que encontrem sua salvação...".
Na sessão de 31 de Agosto de 1938, falava o paciente do plano de escrever um livro com o Dr Peale, pastor protestante, sobre problemas humanos diversos. Freud pede mais esclarecimentos sobre e depois diz: "Ah! sim. Isso parece bem possível". O Senhor Smiley então desabafa: "Não vejo razão para que eu não possa fazer este trabalho de igreja sem prejudicar minha posição na psiquiatria e os padrões psicanalíticos". Freud responde: "Também não vejo razão para isto".
Sobre Telepatia e Clarividência
Citando Smiley: " tinha visto a revista de parapsicologia... mencionei o trabalho de Rhine sobre clarividência e telepatia... O professor não conhecia este trabalho, mas ficou interessado... e disse: - Aí existe alguma coisa."
É sabido que Freud se interessou pelos assuntos da parapsicologia mas alegou falta de tempo para pesquisá-los. Mas é sempre interessante e inusitado vindo esta declaração de um ambiente privado como este.
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Evidentemente, muitos foram os assuntos tratados e aqui trouxemos nossa leitura para o que nos chega com certa novidade. Todavia, é dever citarmos também a frase dita por Freud, numa das sessões: "Ah! Essas coisas de espíritos não existe!", para não acabarmos como tendenciosos, o que não macula a sensação de que há outros Freuds soltos por aí à espera de um detetive de estantes!
Sobre o "Diário de Minha Análise com Sigmund Freud", é um livro leve, intrigante e de leitura fascinante para psicanalistas e amantes do assunto, uma aula memorável de amor, amizade e psicanálise!
Saudações!
R. Temporim
BIBLIGRAFIA
BLANTON, Smiley. "Diário de Minha Análise com Sigmund Freud". São Paulo. Ed. Nacional. 1975
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